Por Fabia Ioscote
O Programa Interinstitucional de Ciência Cidadã na Escola (PICCE) está prestes a dar um passo significativo rumo à popularização da ciência cidadã com o lançamento da versão beta de seu aplicativo. A fase de testes ocorre entre os dias 21 e 28 deste mês e permitirá que pesquisadores e voluntários contribuam para a coleta de dados em dois protocolos específicos: Cobertura do Solo e Observando e Identificando Insetos.

A iniciativa busca envolver a população na construção do conhecimento científico por meio de um sistema colaborativo de coleta e análise de dados. Segundo Tamara Domiciano, doutora em Educação em Ciências e em Matemática, pela UFPR, professora de Ciências, e integrante do PICCE, o aplicativo segue a mesma lógica de plataformas como o iNaturalist e o GLOBE Observer, permitindo que qualquer pessoa participe da coleta de informações essenciais para pesquisas científicas.
“A participação voluntária e colaborativa da população é fundamental para alcançarmos um volume significativo de dados. Esses dados ajudam a responder perguntas que exigem grande abrangência e detalhamento, tornando a ciência mais acessível e democratizada”, explica Domiciano.
Protocolos chave para a ciência cidadã
Os protocolos escolhidos para a versão beta são fundamentais para a plataforma. O protocolo de Cobertura do Solo, por exemplo, é uma adaptação do protocolo do GLOBE Observer e fornece informações sobre o tipo de solo, vegetação e condição climática do local. Os usuários preenchem questionários e tiram fotografias do solo e do entorno, auxiliando no monitoramento de riscos geotécnicos, como deslizamentos de terra e enchentes.
Já o protocolo Observando e Identificando Insetos conta com uma ferramenta de identificação visual por meio de imagens comparativas, permitindo que os participantes fotografem e classifiquem os insetos encontrados. “Esse protocolo é essencial porque apresenta subdivisões que facilitam a identificação e análise dos insetos, contribuindo para estudos sobre biodiversidade e impactos ambientais”, destaca a pesquisadora.
Como participar da versão beta
Os interessados em testar o aplicativo podem acessar todas as informações na página do PICCE, onde encontrarão o link de acesso ao aplicativo, um vídeo tutorial sobre sua instalação e um formulário para feedbacks. Como se trata de um software livre, o aplicativo não estará disponível em lojas de aplicativos convencionais, exigindo um processo de instalação específico, de acordo com o vídeo tutorial que estará disponível na página do Programa.
A fase de testes permitirá que a equipe do PICCE avalie a usabilidade da ferramenta, o envio de dados e a visualização das informações coletadas. “Nosso principal objetivo nesta etapa é testar a curadoria e a visualização dos dados. Se tudo correr bem, replicaremos o modelo para os demais protocolos”, explica Domiciano.
Com lançamento oficial previsto para maio, o aplicativo do PICCE promete se consolidar como uma ferramenta acessível e colaborativa para o monitoramento ambiental e a educação científica, incentivando a população a se engajar na produção de conhecimento e na busca por soluções para desafios ambientais e urbanos.
Um futuro de maior interação entre cientistas e cidadãos

O professor Emerson Joucoski, coordenador do PICCE, explicou as expectativas em relação ao impacto do aplicativo. “A expectativa é que, até o final do ano, já tenhamos dados enviados para o aplicativo. Com isso, poderemos realizar a curadoria, ou seja, a limpeza desses dados, garantindo que sejam fidedignos e reflitam exatamente o que os protocolos solicitam. Só então poderemos fazer um lançamento em grande escala”.
O coordenador explicou que a ideia é disponibilizar esse aplicativo de forma pública em vários repositórios disponíveis na internet e fazer uma divulgação forte. “Ainda estamos nesse sentido, com uma boa expectativa agora que o aplicativo está tomando seu rumo final. Esse é o impacto que ele terá: muita coleta de dados de qualidade e muito trabalho para ser feito, contribuindo para a produção científica em locais onde os pesquisadores não conseguem chegar”, disse.
A adoção de protocolos de ciência cidadã tem o potencial de fortalecer a participação de professores e estudantes na produção científica, criando uma rede colaborativa de coleta e análise de dados. De acordo com Joucoski, a iniciativa permite que cidadãos realizem coletas de informações cientificamente válidas, beneficiando tanto pesquisadores quanto a comunidade escolar.
“A ideia dos protocolos de ciência cidadã é que os cidadãos possam fazer a coleta de dados cientificamente válidos. Isso permite que, por um lado, os pesquisadores que produziram os protocolos tenham acesso a esses dados e possam utilizá-los em suas pesquisas, e, por outro, que esses dados, coletados em diferentes locais do estado do Paraná, possam ser utilizados pelas escolas e professores para estudos comparativos”, explicou.
Ele também vislumbra um futuro de maior interação entre cientistas e cidadãos, com possibilidades de coautoria nos protocolos e na análise de dados. “Ainda não chegamos ao nível de alguns países que já fazem esse trabalho de coautoria entre cientistas cidadãos e pesquisadores, mas é o que pretendemos alcançar. No futuro, queremos que os cidadãos que coletam os dados também possam contribuir para a melhoria dos protocolos e até mesmo na análise dos dados junto aos pesquisadores”, finalizou.
Ouça o coordenador do PICCE, Emerson Joucoski.